Por entre a multidão

Por entre a multidão o profeta anuncia:
“- Aí está o vosso Deus!”
Brada com todo o vigor da sua alma
Aos corações perturbados que já desanimam:
“- Tende coragem; Não temais!”

-Porque estão nossos olhos tão macerados
Que já não Te vêem? Que cegueira é esta
Que tolhe de sombras bizarras e translúcidas
As minhas possibilidades de luz?
E que peso é este que me sobrecarrega
E impede meus passos de caminhar
Ao encontro dos acenos de esperança
Que o profeta não se cansa de anunciar?

- Impõe, Senhor, as Tuas mãos sobre a minha cabeça;
Mete Teus dedos em meus ouvidos
E Toca a minha língua para que anuncie
Que só Tu és Caminho, Verdade e Vida;
Quero ser profeta do Teu Amor
E não deixar apagar o dom que em mim semeaste;
Vou sujar os meus pés no pó da estrada
E gritar a todos que só Tu és o Senhor.
Louva minha alma o Teu Deus
Não te canses de ser profeta do seu amor!


P. Mário Tavares
oração para o XXIII Domingo do Tempo Comum, ano B

Eis-me aqui

Com a minha veste de profeta
Me aproximo de Ti, Senhor!
Com rosto abatido e por terra
Sem sandálias nos meus pés fatigados
Confiante e com temor
Me aproximo de Ti, mais uma vez, meu Senhor!
“Dá de comer a essa gente!”
Dizes-me com Tua voz de oiro
E de murmúrio de cristais ao cair da tarde;
Percebo no Teu olhar misericórdia e compaixão
Mas eu, Senhor, tremo de inquietação
Perante as tuas palavras que revelam
A minha incapacidade e a minha pobreza.
Como dar pão a tanta gente se o não tenho?
Como saciar a multidão
Se sou eu o caminhante faminto
Que Te imploro um pouco do teu pão
Quando as forças já definham ao cair da jornada?
Ergo os meus olhos cavados e cintilantes
Invoco o Teu Espírito para que me ilumine e esclareça
E redescobrindo o meu olhar de criança
Eis que a Luz me revela e segreda :
- O que te falta é confiança!
Eis-me aqui, Senhor, respondo!
Para repartir o Teu pão na minha pobreza
E saciar de amor todos os que caminham na noite
E Te querem abraçar na confiança da sua incerteza!


P. Mário Tavares
oração para o XVII Domingo do Tempo Comum, ano B

Como bálsamo

A notícia chegou como bálsamo
Para o meu ser atormentado e inquieto:
- Eis que vem o Mestre da Galileia
A semear a misericórdia e a redenção
Entre os pobres famintos de justiça e perdão!
Acorri , pressuroso, com o coração em festa
Minha fé me confidenciava
Que bastava tocar-lhe no manto
Para me curar de todo o mal e pecado.

A multidão apertava de todos os lados
Mas persisti na intenção de alcançar o meu Senhor
E num esforço derradeiro, consegui o meu intento
Com a minha alma a transbordar.
Naquele instante, num encanto de amor
Todo o meu ser se inundou de nova vida
Com o Espírito a suavizar minha dor.

- Quem me tocou? Perguntou o Mestre;
- Fui eu Senhor! E deixa-me tocar-Te sempre
Nas minhas angústias e tardes outonais.
Deixa-me tocar-Te para que me cures
As minhas feridas e o desalento dos demais;
Deixa-me tocar-Te, indiferente aos risos de desdém
Da multidão indiferente;
Eu sou teu, Senhor, sou da Tua gente
Quero tocar-Te no manto e seguir mais além!


P. Mário Tavares
oração para o XIII Domingo do Tempo Comum, ano B

Porque pareces dormir

Minhas vagas altivas
Lançam-me com violência no abismo
Perdido na fúria das marés vivas
Prendo as amarras do meu egoísmo;
Quem vem abater tamanha altivez
Que me recupere das velhas paixões
Onde o amor vive agrilhoado
Nas masmorras das minhas prisões?

Porque pareces dormir
Quando minha angústia mais se encapela?
Faz-me, Senhor, redescobrir
As cores quentes e suavizantes
Da minha esbatida aguarela;
Acalma a tempestade dos sentidos
Dá-me o pão da serenidade
Liberta meus frémitos e meus gemidos.

Só com a Tua graça e protecção
Saberei vencer a tentadora natura;
Rasga meu titubeante coração
Molda, com Teu Espírito, meu barro inerte
Faz-me nova criatura.

Para que na noite encontre a estrela polar
Dá-me, de novo, o sorriso de criança
Para que enfrente, destemido, o alto mar
E possa ver surgir, esplendorosa, a Tua bonança.

P. Mário Tavares
oração para o XII Domingo do Tempo Comum, ano B

Arranca-me, Senhor

- Arranca-me, Senhor
Qual ramo rebelde de um cedro ideal;
Arranca-me e leva-me nos teus braços
Para um monte ainda mais alto
Que só o Teu amor eterno é capaz de edificar;

Na voragem do tempo vou declinando
E consentindo na mediania hipócrita:
Ramo agitado pelo vento
Imploro a força da tua mão
Que retempere a minha hesitação
E me revigore no meu lamento.
- Planta-me, Senhor, gera-me de novo
Meu barro anseia pelo Teu sopro vital;
Ressequido na aridez do deserto
Busco a água viva da fonte eternal
Onde o amor renasce
E a esperança reverdece.

Quero ser árvore nova
No eterno monte sagrado
Da tua plantação de Luz!
Só em teus braços me sinto amado
Só no Teu monte descubro o caminho
Que à Tua fonte me conduz!


P. Mário Tavares
oração para o XI Domingo do Tempo Comum, ano B