DOMINGO III TEMPO DA QUARESMA ANO A




            O evangelho do próximo Domingo narra o encontro de Jesus com a samaritana. Jesus vai a caminho de Jerusalém para celebrar a Páscoa com os discípulos. Ao passar pela Samaria, junto ao poço de Jacob, encontrou uma mulher a tirar água e pediu-lhe água para matar a sua sede. O diálogo que a partir daí se desenrolou é um dos factos mais marcantes da vida pública de Jesus.

            Este episódio é descrito longamente, com muitos pormenores, mais do que na maioria dos relatos sobre a vida de Jesus. Vê-se que Mateus tratou deste episódio com particular cuidado e intenção. Muitos são os ensinamentos que podemos colher deste texto para a nossa caminhada quaresmal.

            Antes de mais, Mateus faz-nos ver o caminho de conversão que a samaritana percorre desde a agressividade inicial com que responde a Jesus até ao gesto final de ir anunciar aos habitantes da sua cidade que tinha encontrado o Messias. Como um verdadeiro pedagogo, Jesus vai encaminhando o diálogo de forma a revelar àquela mulher a esperança que não ilude e os dias da salvação que estavam a chegar.

            O caminho que a samaritana percorre ao longo do diálogo com Jesus pode ser um modelo para o nosso itinerário quaresmal. Antes de mais, há que salientar que aquela mulher teve a ousadia de se deixar conduzir por Jesus. Foi levando a sério tudo o que Jesus lhe ia dizendo e, ao mesmo tempo, ia-se abrindo à Verdade que o Mestre da Galileia lhe ia revelando. Abdicou das suas ideias iniciais para acolher o anúncio do evangelho. Entretanto, Jesus não se escandalizou com a sua história pessoal cheia de pontos negros e, passo a passo, levou a samaritana à conversão. O entusiasmo que manifestou no fim do diálogo com Jesus é bem revelador da revolução interior que aconteceu no seu coração por ter encontrado Jesus.

            Na pedagogia da fé, é fundamental encontrarmo-nos, pessoalmente, com Jesus. Todos nós devemos encontrar o nosso poço de Jacob para, demoradamente, nos encontrarmos a sós com Ele. Andamos inquietos e angustiados? Porque não tirar um pouco do nosso tempo para entrar numa igreja e ouvir no silêncio a voz de Deus que continua a falar? Quando damos espaço interior a Deus, poderemos saborear a suavidade da sua presença espiritual. Entenderemos, então, que Deus tem sempre uma palavra que é para mim e que essa palavra vai `minha frente a desenhar o caminho.

            Os habitantes da cidade, por sua vez, deixaram-se também contagiar pelo testemunho daquela mulher. Viram-na totalmente transformada e quiseram conhecer o Mestre que acabaria por permanecer dois dias na Samaria. Ao ouvir os seus ensinamentos, também eles se deixaram contagiar e converter por Jesus.

            Se descobríssemos também nós o dom de Deus! Não bastam as rotinas religiosas. É importante deixarmo-nos surpreender por Jesus junto ao nosso poço. Certamente Ele nos vai pedir a água que Lhe podemos dar, mas far-nos-á saborear os dons do seu imenso amor.

A samaritana mudou a sua vida. Também nós poderemos reencontrar a esperança se aceitarmos caminhar com o redentor que salva as nossas vidas.


P. Mário


TEMPO DA QUARESMA 1º DOMINGO ANO A



O melhor modo de vivermos o espírito da Quaresma será sempre a via trilhada a partir dos textos da liturgia. Em cada Domingo, os textos da Palavra de Deus vão abrindo os caminhos e propondo os novos passos da caminhada. No próximo Domingo, o primeiro desta Quaresma, a Igreja propõe-nos um texto de Mateus. É a conhecida passagem das tentações de Jesus. Trata-se dum texto muito rico do ponto de vista simbólico e onde podemos descortinar aspectos novos apesar de já o termos lido e escutado muitas vezes.

Jesus tinha acabado de ser baptizado por João Baptista e o Espírito Santo conduziu-O para o deserto. João pregava que o Reino de Deus estava próximo e que depois dele viria Aquele que iria fazer esse Reino acontecer. Depois desta experiência com João, Jesus retirou-se para deixar amadurecer no seu coração a voz de Deus. Aquela voz que O apresentara como Filho quando subiu das águas e sobre Quem faria descer o Espírito Santo. Jesus precisaria de aprofundar o significado daquele momento que revelara a verdade da sua identidade e o sentido da sua missão. O deserto foi sempre um território oportuno para escutar a voz de Deus.

No deserto, porém, foi tentado por satanás. O maligno tentou Jesus por três vezes escolhendo bem a matéria de cada tentação. Na primeira, o demónio provocou a debilidade física motivada pelo alimento escasso e desafia Jesus a mudar as pedras em pão. Na segunda, levou Jesus ao pináculo do templo que era a parte mais alta das muralhas de Jerusalém e desafiou a sua confiança em Deus com a sugestão de se atirar dali abaixo. Finalmente, o demónio levou Jesus a um monte muito alto e prometeu-lhe todos os reinos da terra se se prostrasse diante dele e o adorasse.

Estas tentações com que o demónio tentou Jesus são também indicadoras das tentações a que todos nós somos sujeitos. O evangelho não revela só as tentações de Jesus, antes, também nos põe de aviso em relação às nossas tentações: A tentação do pão fácil, da ganância pelas riquezas nem sempre lícitas e sem olhar a meios; a tentação do ter, dos consumos desenfreados e de dar aos bens materiais um lugar que, de facto, não deveriam ter.

A segunda tentação mete em realce a vontade de poder e de dominar os outros. É a tentação do orgulho e da vaidade que pretende sempre fazer-nos julgar mais do que os outros. A ânsia de poder e todo o género de prepotência que não olha a meios e está a um passo da corrupção e da cultura da mentira. A única coisa que interessa é o proveito individual e o bem próprio.

A terceira tentação é, de todas a mais refinada: o demónio quer colocar-se no lugar de Deus. Este foi já o pecado de Adão e Eva e continua a ser o pecado do homem do nosso tempo. O homem pretende ser o “Senhor” da sua própria vida e colocar-se no lugar de Deus. A cultura contemporânea proclamou a morte de Deus e o reinado do Homem superior, único protagonista do seu destino.

Jesus resistiu às tentações e voltou do deserto confirmado na sua missão. Enquanto esteve no deserto, João Baptista fora preso e Jesus percebeu que chegara o tempo de iniciar a sua missão pública.

A nossa sociedade cai com demasiada facilidade nestas tentações do demónio. As consequências não escondem o seu rosto. Quanto mais longe de Deus, mais prisioneiro do seu egoísmo vai ficando o homem e mais longe vai ficando o ideal da fraternidade.


A quaresma é um tempo oportuno para resistirmos à tentação e redescobrirmos a beleza de seguir o caminho de Deus, adorando-O sobre todas as coisas. Será sempre a melhor via para construir um mundo mais humano.   

P. Mário  

DOMINGO VI TEMPO COMUM ANO A

COMENTÁRIO|20170212


No evangelho do sexto Domingo do Tempo Comum, continuamos a ler o discurso programático de Jesus no início da sua missão. As multidões acorriam a ouvir os seus ensinamentos e a observar os seus milagres. Jesus parece não se iludir com as multidões e, com este discurso, quer deixar bem clara a personalidade do discípulo.

Jesus não esconde as exigências do Reino. Com uma linguagem clara e firme, vai desenhando o perfil do discípulo. Não basta mostrar entusiasmo com o que se ouve da boca do Mestre. A sua vida há-de corresponder aos novos critérios que Jesus anuncia.

Nesta passagem do evangelho de Mateus, Jesus começa por afirmar que não veio revogar a Lei ou os profetas, antes, veio completar a Lei. Jesus vem na sequência dum longo caminho de salvação iniciado pelos Patriarcas e que agora encontra o seu tempo de plenitude. Jesus vem na continuidade dos grandes gestos do Antigo Testamento aos quais é fiel. No entanto, vem pronunciar uma palavra nova, inesperada, com a qual se realizam os sinais definitivos do Reino do amor e da paz.

Neste sentido, Jesus apresenta-se como quem tem autoridade. Aos discípulos, exige que a sua justiça seja maior do que a dos fariseus e dos escribas que exigiam aos outros fardos pesados, mas o seu coração era perverso. Os escribas e os fariseus conheciam bem a Lei, ensinavam-na e exigiam o seu cumprimento. Aos seus discípulos, Jesus espera que vivam o mistério do seu amor sempre presente no seu anúncio.

Ao mesmo tempo, Jesus assume uma autoridade inaudita: “ouvistes o que foi dito aos antigos...porém eu digo-vos”. Esta descontinuidade face ao Antigo Testamento, reafirma a novidade da Pessoa de Jesus e as palavras novas que profere. Jesus tem uma Palavra nova a dizer que deverá ser posta em práctica por aqueles que o querem seguir. Essa Palavra é libertadora, não opressora; é fraterna, não individualista; deixa-se conduzir pela via do amor e não do egoísmo.

A coerência de vida é um critério sobre o qual Jesus insiste e que não passa despercebido nesta catequese de Jesus. Os que O seguem terão de ser homens de palavra, a sua linguagem deverá ser Sim, Sim e Não, Não.

Poderemos ficar com a sensação de que ser discípulo de Jesus Cristo é uma tarefa árdua e que não está ao alcance de todos. Nada de mais enganador. Quem segue os caminhos de Cristo e pauta a sua vida pelos caminhos da verdade, encontra a luz e o sentido da sua vida. Em contrapartida, quem segue o seu comodismo e só dá espaço ao seu individualismo, não serve para ser discípulo do Mestre d Galileia.


O Senhor nos dê a graça de descobrirmos a beleza da proposta que nos faz no seu evangelho. As exigências da fé conduzem à plenitude e à salvação.


P. Mário